Capítulo 6 – Explicações

•12/01/2010 • 10 Comentários

Pouco depois de a aula ter acabado, Marcos ia em direção aos portões da escola, viajando em um mundo de teorias, todas elas envolvendo o fato de Jessica não ter ido à aula. O pensamento mais recorrente na mente de Marcos era simples: “Por que ela não foi para a faculdade?”. Sua pequena caminhada até seu prédio parecia uma maratona, praticamente não notava a passagem do tempo, ou dos carros que quase o atropelavam. Lentamente se aproximava do seu destino, ainda com a mente fixa, embora tivesse divagado sobre a importância de olhar para os lados antes de atravessar a rua. Virou na esquina – sempre passava por aquela esquina – pensou brevemente, andou alguns passos, até que reparou que havia alguém sentado nos degraus do prédio, uma menina que ele conhecia, e que até recentemente povoava a mente de Marcos. Era Jessica, esperando por ele, com um olhar enigmático.

Dentro da cabeça de Jessica se passavam pensamentos ligeiramente diferentes. Não havia dormido a noite toda, ainda pensando no beijo que recebera, involuntariamente, mas não menos significativo. Devia significar algo, tinha que significar algo, e outras frases eram recorrentes em sua mente. Ela conseguia aceitar que ele a beijara, mas não que o beijo fosse somente por que ele estava bêbado. Tinha que haver algum sentimento por trás disso, e era isso que ela estava disposta a descobrir, apesar de não estar muito segura quanto a isto.

- Jessica? – perguntou Marcos – O que você está fazendo aqui?

- Eu… Eu… Eu… – Ela não conseguia formular uma frase.

- Você? – perguntou Marcos – Você o… – e antes que ele pudesse terminar a pergunta, a garota começou a chorar copiosamente na frente dele. Marcos, que nunca tivera muito jeito em acalentar, resolveu simplesmente abraçá-la.

- Calma… Calma. – disse ele num tom tranquilizante – O que foi que aconteceu?

- Eu… Eu… – ainda chorando bastante – Eu queria saber por que você me beijou ontem!

Marcos ficou bastante atordoado com a pergunta. Ele sabia a resposta, pelo menos a resposta óbvia. Estava bêbado, e impulsionado pela coragem – na verdade pelo fato de estar bêbado – tinha beijado a menina mais bela da sala. Mas o porquê de ele a ter beijado, o porquê verdadeiro, nem mesmo ele sabia.

- Olha, Jessica, me desculpe – disse Marcos – Mas eu estava bêbado, não tenho muita certeza de porque eu fiz aquilo, me desculpe mesmo.

- Mas… Mas… – tentando recobrar a calma – Mas você não sente nada por mim?

- Olha, eu acho você linda – disse ele – Aliás, você é a garota mais linda da sala.

- Sou? – perguntou Jessica – Você me beijou, então, só por que eu sou linda?

- Não, espera, não é isso. – começando a se embaralhar – É que… Bem, isso fez parte da decisão também, mas eu não acho que sinta algo além por você, sabe?

- Então você não gosta de mim! – berrou Jessica, voltando a chorar.

- Não, calma! Não é que eu não goste de você, eu gosto! – disse ele.

- Gosta mesmo? Do tipo, gostar de ficar comigo? – perguntou ela.

Nesse momento Marcos se sentiu encurralado, não sabia exatamente o que dizer. Se respondesse que sim, não estaria mentindo, realmente havia gostado muito de beijá-la. Mas ele provavelmente não queria um relacionamento, aliás, ele positivamente não queria um relacionamento com ela. Mas se ele respondesse que não, também estaria mentindo. Nesse momento o cérebro de Marcos deu um nó. Pensando um pouco, e tentando desatar esse intrincado nó que se formara em seus pensamentos, ele resumiu em uma frase:

- Tô ferrado – disse ele baixinho.

- O quê? – perguntou Jessica.

- Nada! – pensando rápido emendou – Jessica, eu gosto de você, acho você uma garota incrível, bonita e bastante divertida. Mas eu não estou procurando um relacionamento agora. Te garanto que o beijo foi foda, você beija muito bem, mas eu estava bêbado e não tinha certeza do que eu estava fazendo! Me desculpa, por favor! Não era minha intenção te magoar. Eu adorei ficar com você, se aquilo pode ser chamado de ficar, mas eu não quero namorar com você, e também não quero ficar com você de novo, sinto muito.

Atônita, Jessica olhava para Marcos, enquanto ele despejava aquela avalanche de explicações e de desculpas. Havia parado de chorar, ele ainda estava na metade, mas ela já tinha percebido que ele não gostava dela. A única coisa que cruzou sua mente nesse momento foi essa:

- DESGRAÇADO! – gritou – POR QUE ENTÃO VOCÊ ME BEIJOU? VOCÊ ACHA QUE EU SOU UMA QUALQUER? QUE PODE SAIR POR AÍ PEGANDO! ESTÁ MUITO ENGANADO!

O que ocorreu em seguida foi bastante confuso, Marcos se levantou para acalmá-la, enquanto ela berrava e esperneava. A primeira e última coisa que ele viu, como na noite anterior, foi a mão de Jessica. Acertou bem em cheio o mesmo lugar, deixando, onde já havia uma marca, um leve hematoma.

- DESGRAÇADO! – e virando-se de costas começou a correr, chorando.

Marcos, se levantando do chão, olhou para as costas dela, enquanto sumia pela esquina, aquela mesma esquina pela qual minutos antes ele havia passado. E tudo que veio em sua cabeça foi: “Que mulher maluca, porra. Segunda vez em dois dias que levo um tapa”. Levantou-se e subiu os degraus. Ao chegar ao seu quarto deitou-se, para acordar somente na manhã seguinte, com o rosto inchado.

Uma pequena interrupção

•12/01/2010 • 1 Comentário

Estou aqui me intrometendo, e interrompendo um pouco a série Desocupados, só pra avisar que agora o Texto do Dia tem uma mãozinha feminina!

Fui convidada pelo meu querido Yuri, e devo postar aqui de vez em quando. Pros que não me conhecem, prazer, sou a Paty. Ruiva, 1,59m, pseudo-estudante de jornalismo, e namorada do Yuri.

Boas-vindas a mim ;D

Capítulo 5 – Um novo dia

•12/01/2010 • 7 Comentários

Novamente o relógio toca. Um braço tenta alcançá-lo, mas não encontra nada. O barulho irritante continua sem cessar. Marcos agora irritado e com dor de cabeça tateia pelo chão, em busca do famigerado relógio. Pouco depois, e alguns andares abaixo, uma pobre vítima se encontra espatifada na calçada, em pedaços. O pobre relógio não teve chance contra a fúria de um jovem de ressaca. Lentamente, e com a cabeça latejando, Marcos se levanta.

- O que aconteceu ontem? A última coisa de que me lembro foi de estar no bar com meus colegas… – indagou para si mesmo – mas que merda rolou?

Algumas cenas difusas aparecem em sua mente, e começa a se lembrar de ter saído da sala, com a Clara, e de ter encontrado Gabriel logo depois, esperando por eles. Saiu a caminhar com seus dois colegas, atravessando a rua principal até que Clara perguntou:

- Sabe… O pessoal ficou de se encontrar em um bar aqui por perto, não estão afim de ir não?

- Eu topo! – falou Gabriel.

- Tanto faz, não tenho nada melhor para fazer mesmo – disse Marcos – mas não pretendo sair tarde.

Suas memórias agora retornam à mesa de bar, onde estavam sentados os três e mais umas vinte pessoas. Metade das quais ele não fazia idéia de quem eram e, se dependesse dele, continuaria a não saber. Rapidamente elas começaram a se apresentar.

- Oi sou o José!

- Luana aqui.

E assim por diante as pessoas se apresentaram. Quando todos terminaram de falar, alguém sugeriu:

- Vamos pedir as bebidas ou não? Eu vim é para encher a cara! – sendo ovacionado em seguida.

Pouca coisa após esse fato faz parte da memória acessível de Marcos: alguns copos de cerveja e petiscos para diminuir a fome, e com as horas passando algumas pessoas passaram a se pegar, a Clara começou a dar em cima dele ele e o Gabriel passou a fazer propostas estranhas. Pouco a pouco as memórias vão ficando mais e mais vívidas, e ele começou a recordar de mais fatos que ocorreram no começo da noite. Na verdade, um fato em particular quase o fez entrar em choque. A menina que quase o atropelou estava sentada emburrada em um canto, sem falar com ninguém e ignorando o fato de haver cerveja disponível. Achando curioso, ele se levantou e foi falar com ela.

- Olá, por que não está bebendo também? – falou o rapaz levemente embriagado.

- Não bebo, acho besteira. – retrucou a mal-humorada – Não vejo diversão nenhuma aqui.

- Mas isso não é motivo para ficar aí emburrada, vem cá que eu te mostro diversão. – Falando isso, Marcos se movimentou e beijou Jessica com toda a vontade do mundo. Não acreditava que isso estava acontecendo, deveria estar sonhando. Ele infelizmente só teve tempo de pensar isso, por que logo após uma mão veio em direção a seu rosto, acertando em cheio. São as últimas lembranças que Marcos tinha da noite. O fato de ele ter ficado inconsciente talvez tenha ajudado. Um barulho do lado de fora do quarto faz Marcos voltar à realidade.

- Acorda menino! Vai se atrasar no segundo dia de aula? – gritou a mãe – De qualquer forma, estou indo pro trabalho, beijocas querido!

- Tô indo, mãe! – exclamou, e voltando para si mesmo – Não acredito que eu a beijei.

Chacoalhou sua cabeça e partiu para seu ritual matinal de sempre. Levantar, acertar o pé em algo, ir para o banho, tomar café e comer pão seguido de algo para melhorar a ressaca. Terminado todo esse ritual ele seguiu para aula, ainda pensando no beijo de que ele mal se lembrava.

Chegando à sala de aula, Marcos notou que não havia ninguém além dele próprio. Decidiu então se sentar no fundo e observar as pessoas que iam chegando. Logo depois de se sentar, chegou uma garota que ele vira dando mole pro Gabriel, o que, aliás, várias fizeram e, pelo o que ele lembra, nenhuma teve sucesso.  Seguido dela veio um rapaz moreno e alto, que ele lembrou que foi quem sugeriu a cerveja; ele parecia estar péssimo. Aos poucos a sala foi enchendo, mas nada das pessoas que Marcos conhecia, e para piorar, praticamente todos estavam olhando para ele e cochichando algo. Finalmente Gabriel entrou na sala e foi logo sentar ao lado dele.

- Bom dia! E ai, como passou a noite? Sua cabeça deve estar te matando – perguntou o rapaz em tom amigável.

- É, realmente está uma merda, mas me diga como afinal eu acabei em casa? – disse Marcos.

- A Jessica se sentiu culpada de ter te feito bater a cabeça na barra de proteção depois do que aconteceu, tanto que pediu nossa ajuda pra te levar em casa. Legal sua mãe! – disse tranquilamente.

- Okey, mas o que exatamente aconteceu? – perguntou Marcos – Não tenho muitas memórias de ontem.

- Você não se lembra de ter beijado a Jessica? Tem uma puta marca de mão na sua cara até agora – E tirando um espelho da mochila Gabriel mostrou a marca da mão feminina na cara dele – Tem espelho em casa, não?

- Ah, nem tinha reparado. Então realmente aconteceu. Será que ela vai ficar muito puta? – falou Marcos parecendo constrangido e nervoso ao mesmo tempo.

- Não sei, acho que não. Ela tava fazendo cara de quem estava gostando muito. – e rindo Gabriel tenta imitar a cena, sozinho.

Passado alguns minutos, Clara entra na sala e senta-se do lado de Gabriel, ignorando totalmente Marcos.

- Bom dia, Gabs! – disse a menina secamente.

Decidido a simplesmente ignorar, Marcos continuou a olhar para a porta esperando a entrada de sua vítima, ou do seu algoz. Algum tempo se passa e nada de ela chegar, e o professor entra na sala. Deveria ter uns trinta anos e estava razoavelmente acima do peso, mas Marcos foi com a cara dele.

- Gente, a aula vai já vai começar, deixa só eu pegar algo ali e já volto – disse o professor.

Os minutos se transformaram em horas, e com isso a aula chegou ao fim. E Jessica não havia aparecido em nenhum momento.

Capítulo 4 – Revelações

•11/01/2010 • 10 Comentários

Jessica estava chocada. Ela jamais vira um homem se portar daquela maneira, muito menos a chamando de amiga e de uma forma bastante afetada.

- Olha, acho que não entendi direito. – disse ela – mas você me chamou de amiga?

- Claro ué, o que foi? – retrucou Gabriel – Algo errado?

- Não, nada não. – respondeu ela meio envergonhada – só achei meio estranho.

- Ah, okey. – respondeu o rapaz e foi conversar com outra garota.

Jessica ficou alguns segundos ali, parada, contemplando a imagem desse ser. Bastante confusa com a forma com que ele se apresentou, ela começa a pensar em várias possibilidades, até ser interrompida bruscamente.

- Ele é gay, e pela sua expressão você não está acostumada com isso – retrucou o jovem que estava fumando.

- Você gosta de assustar as pessoas. – reclamou a moça – que mania infernal.

- Não, é que eu simplesmente não ligo.

- Então por que você fica fazendo essas aparições atrás de mim?

- Porque você parece bastante desligada da realidade, além do fato de ser patricinha. – diz Tuco, praticamente atropelando Jessica – Por isso estou me intrometendo.

- Não precisa fazer isso! Além de me assustar é bastante esquisito. – reclamou, quase chorosa.

- Não me importo, e de qualquer forma a porta se abriu. – movimentando-se em direção à entrada – Aprenda desde cedo, ninguém se importa com pessoas como você. Cresça.

- Ahn? Como assim? EI! EIIIIIII! – E assim Jessica sai atrás de Tuco, em busca de explicações. Logo atrás deles vêm Marcos e Clara, agora acompanhada de Gabriel, que conversa bastante alegremente com ela, enquanto Marcos simplesmente volta a viajar em seus pensamentos.

- Ai, qual é a daquele menino? Tá ali olhando pro nada. – perguntou Gabriel a Clara – Oiiii! Acorda moço!

- Ah, oi. – Disse Marcos.

- Geez, você é um cara estranho, mas fui com sua cara. Prazer, eu sou o Gabriel, mas pode me chamar de Gabs.

- Tá, sou o Marcos. – E levemente perturbado voltou a divagar.

Passaram a porta que dava entrada para o corredor principal, um lugar todo branco com portas de cores variadas, algo bastante estranho para uma faculdade. Na porta havia um senhor com mais ou menos 60 anos, barbas um pouco grisalhas, pouco cabelo e uma atitude de pouca paciência esperando por eles.

- Bem vindos à UFES! Por favor, se dirijam à sala quatro, aquela que tem a porta amarela – disse o senhor – Em breve estarei com vocês para explicar como vai funcionar o curso e outras coisas.

Os alunos começaram a se sentar, e aos poucos a sala foi começando a encher, até que finalmente entrou Marcos, seguido por Clara e Gabriel, que se sentaram na fileira lateral de modo que pudessem continuar conversando, enquanto Marcos divagava sobre aquele enigmático e ao mesmo tempo cativamente personagem na porta. Os últimos a entrar foram Tuco com Jessica a sua cola berrando.

- Você não tem o direito de dizer aquilo para mim! Você nem me conhece, o que infernos você tem na cabeça, moleque? – berrou ela – Não tem respeito não, é?

- NÃO ME IMPORTO! Entenda isso, garota! – retruca Tuco, sentando-se na cadeira mais próxima – Agora me deixe em paz. Possessa, Jessica tomou uma cadeira mais afastada e se sentou, ainda com cara de quem realmente não gostou do que ouviu. Logo que todas as pessoas estavam sentadas e acomodadas, começando a fazer as primeiras amizades, entrou na sala o senhor que estava na porta. Sua presença praticamente silencia o ambiente, restando apenas murmúrios, pequenas frases, todas com uma questão em mente: quem seria esse homem que tem uma presença tão imponente?

- Bom dia jovens alunos e bem vindos à UFES. – Nesse momento o senhor fez uma pausa, e Marcos começou a sentir suas pálpebras pesarem – Vocês foram os aprovados no vestibular para o primeiro semestre, meus parabéns. – Marcos começa a sentir um cansaço enorme e as palavras do senhor começam a ficar mais dispersas – Em nome de todo o Departamento de Comunicação Social gostaria de dar as boas vindas, e falar para vocês que, se pretendem aprender, terão que estudar muito. – Um braço estendido chama a atenção do senhor, enquanto Marcos dá suas últimas pestanejadas – Sim, você aí no fundo, qual a pergunta?

- É que todos estávamos nos perguntando, quem é você? – perguntou um dos alunos.

- Ah é, esqueci de me apresentar! Chamo-me David, mas podem me chamar de Protti e serei seu…

Marcos cai no sono é acordado no final da palestra por Clara.

- Cara, esse professor é completamente louco. Espero que não tenhamos aula com ele de cara! – diz ela – Vamos para casa, acho que a maioria já foi e só restou aqui o Gabriel, que ficou conversando comigo e está nos esperando lá fora. Vamos?

- Ahn, okey. – rapidamente Marcos se levanta e sai pela porta, assim como fizera pela manhã, sem ter plena certeza de onde teria se metido.

Capítulo 3 – –OIQ?

•10/01/2010 • 8 Comentários

Todos em volta olharam estarrecidos para a cena. Uma jovem de cabelo fora do normal pulando, com todas as suas forças, em cima de um pobre menino magrelo. Um baque surdo ecoou por perto no momento em que os corpos de ambos encontraram o chão e, consequentemente, a feliz formiga.

- Quinhoooooooooo! Ouuoon, que saudades! Faz tanto tempoooo! – falava histericamente a menina.

- Clara? O que você tá fazendo aqui? Tu não tinha ido para o Rio? – indagava o incrédulo.

- Ué, eu tinha, mas voltei neah, eu passei aqui também, não sabia?

- Não! Muito menos esperava ser atacado na frente de todo mundo! Dá pra sair de cima de mim agora? – disse Marcos – Você está meio que me sufocando.

Lentamente Clara se sentou ao lado de Marcos, que começava a se recuperar da surpresa. Embora fosse baixa, ela tinha praticamente o mesmo peso que ele, cabelo negro com uma franja que parecia uma mescla de ruivo com laranja e era um pouco gordinha.

- Nhoo – exclamou ela – estava com tantas saudades do meu amiguenho!

- Tá, eu notei isso. Mas por que você decidiu me atacar desta forma? – retrucou o rapaz.

- É que quando eu te vi, não consegui me segurar! Tinha que abraçar meu Best!

- Que seja, acho que devemos nos levantar da grama, algo me picou quando caímos.

Lentamente ambos se levantaram e continuaram a conversar indo em direção ao prédio, sendo seguidos por vários olhares curiosos. Clara era uma menina meiga, mas bastante instável e Marcos sabia bem disso. Sempre era ele quem acabava a consolando quando ficava triste, o que acontecia com certa frequência, mas ainda assim gostava dela, era uma amiga divertida e ele prezava a companhia dela. Conheceram-se ainda novinhos, quando estavam no Ensino Fundamental; ele era bastante calado e evasivo, e ela pulava de lá pra cá chateando a todos, inclusive a Marcos. Conforme o tempo passou e eles cresceram, a amizade deles começou a aumentar. Ambos eram filhos únicos e muitas vezes se sentiam bastante solitários. Passaram então a fazer companhia um ao outro, até que Clara teve que se mudar, ou pelo menos era isso que ele pensava.

- Então… A empresa ofereceu um aumento para que meu pai ficasse aqui – disse Clara – e ele acabou aceitando. Por isso estou aqui!

- Ah, legal. Parabéns… Eu acho. – retrucou o rapaz.

- Entãooooo, e você o que tem feito? – disse ela tentando puxar conversa.

- Nada. Tenho lido, somente. – respondeu secamente.

Com essa resposta, Marcos ganhou alguns minutos de silêncio, embora ela ainda o seguisse como uma sombra.

Jessica, que agora estava sentada em um banco próximo a porta, observava os dois. Pensava consigo mesma sobre o que teria sido aquele abraço entre eles. Embora o menino não parecesse feliz, a moça estava radiante.

- Humpf, o que será que esses dois têm? – falou ela baixinho.

- Nada – falou uma voz por trás de Jessica – ela gosta dele, mas ele não quer nada com ela.

Jessica dá um pulo e cai do banco.

- Quem é você? E quem te dá o direito de me assustar assim? – berra a mocinha.

- Tanto faz – diz o jovem – até.

Lentamente o rapaz se distancia e segue em direção à porta, como se nada houvesse acontecido. Lentamente Jessica se recupera do susto e se põe de pé.

- Quem será esse esquisito? Humpf, tanto faz, é um sem importância qualquer.

Ela começa a se dirigir à porta de entrada, e poucos metros atrás estavam Marcos e Clara, que prosseguiam em silêncio. O misterioso jovem já estava encostado ao lado da porta fumando um cigarro, e próximo a ele alguém estava a cumprimentar todos que chegavam.  Ao avistá-lo, Jessica apressou muito o passo, a ponto de começar a tropeçar nas próprias pernas.

- Oi! Eu sou a Jessica. – apresentou-se para o rapaz – qual o seu nome?

- Ai amiga! Meu nome é Gabriel, o prazer é todinho meu.

Capítulo 2 – Fresquinha

•08/01/2010 • 6 Comentários

Com uma música capaz de fazer dormir o maior dos insones, os elevadores possuem uma mágica aura de chatice, mas nesse em particular havia uma bela jovem que se admirava no espelho, olhando de cabo a rabo seu corpo escultural. Foi quase uma hora se arrumando, se maquiando, penteando o cabelo, passando rímel e batom, tudo para estar linda no seu primeiro dia de aula. Olhou no marcador do elevador e estava no quinto andar. Aproveitou para dar os últimos retoques no soutien e na calcinha. Agora estava no segundo andar. Finalmente a porta do elevador se abriu na garagem, e havia logo na saída um carro a sua espera.  Sem demora, sentou-se no banco traseiro e foi falando:

- Paaaaaaaaai! Vamos logo! – disse em um tom que irritaria qualquer um – Quero ir conhecer meus novos coleguinhas!

Com um grunhido indistinguível entre raiva e concordância, o senhor acelerou o carro e partiu para a rua, descobrindo que estava engarrafada.

Andando pela calçada, não muito longe dali, estava Marcos. Caminhava como se estivesse prestando atenção em algo totalmente fora desse mundo, e realmente estava. Imerso totalmente em seus pensamentos, ele atravessou a rua para dar de encontro com o carro de Jessica. Por um breve momento os futuros colegas se entreolharam, mas a atenção de Marcos estava mais focada na cara do senhor que parecia ter – e talvez realmente tivesse – a intenção de matá-lo.

- Desculpa, desculpa, não estava prestando atenção. – Marcos falou com o senhor.

- Presta mais atenção, vagabundo! Da próxima, passo por cima! – ralhou o pai de Jessica.

Ainda um pouco atordoado com a cena, ele continua a se dirigir para a faculdade novamente imergindo em seus pensamentos. Dentro do carro a garota conversa com o pai sobre o incidente. Algo nele teria despertado a atenção da jovenzinha.

- Nossa, que garoto descuidado! Podia ter morrido se o senhor não fosse tão bom motorista… – disse ela em um tom bastante bajulador – ainda bem que você é demais, Papai!

- Obrigado, minha filha. – responde o velho como uma fera que acabara de ser domada.

Observando pela janela do passageiro ela vê algumas pessoas passando lentamente, alguns ônibus e muitos carros. Começa a se sentir um pouco entediada, não está acostumada a passar muito tempo parada. De repente se lembra de seu iPod, que estava guardado em sua bolsa, abre-a e tira o aparelho. Seu iPod era rosa choque com figurinhas da Hello Kitty, o que resumia bastante a personalidade de Jessica, uma feliz e alegre menina de dezessete anos de idade. Nascida na classe alta, sempre viveu de luxo e mordomias, seus pais sempre faziam suas vontades e cumpriam seus desejos. Nunca teve nenhuma dificuldade na escola, sempre fora boa aluna e a mais popular da sala, o que gerou nela um ego bastante inflado. Magra, um pouco alta para uma mulher, corpo bem feito. Sua única reclamação quanto à sua aparência eram seus peitos, que ela considerava pequenos.

Finalmente, após alguns minutos de “tédio”, como Jessica havia categoricamente classificado para o pai, ela chegava à entrada faculdade. Assim como tantos outros, ela começava hoje a estudar para ser uma futura jornalista, pelo menos na teoria. O grande sonho de Jessica era casar-se com um homem rico, para que pudesse simplesmente aproveitar a vida. Apesar de ser quase maior de idade, ainda era uma criança por dentro.

Chegando um pouco depois estava Marcos, que começava a observar o campus. Olhava em volta, observava os prédios e as instalações até que finalmente algo atraiu mais sua atenção. Em pé, falando com alguém que ele presumiu ser o velho que quase o atropelara alguns minutos antes, estava a bela jovem que ele vira, com um vestidinho rosa curtinho e uma bolsa pequena demais para caber qualquer coisa.

- Que menina gata, deve ser a maior patricinha – pensou consigo mesmo – Será que devo falar com ela?

Se dando um tempo a mais para observar o resto dos alunos que estava se dirigindo para o mesmo prédio que ele, viu algumas pessoas interessantes, praticamente todas vestidas como se fosse somente mais um dia comum: camisa, calça jeans e, claro, um All-Star no pé. Parecia quase um uniforme, concluiu ele. Com passos vagarosos e ritmados ele se dirigia ao prédio, mal sabendo que alguém vinha correndo em sua direção.

- Quinhooooo! – gritou uma jovem com uma franja laranja – Aaaaaaaaahh!

Na fração de segundo entre a moça pular e Marcos se virar, algo interessante aconteceu a alguns centímetros dali. Uma formiga havia encontrado um torrão de açúcar e estava bastante feliz com isso, até ser esmagada por um adolescente que cairia em cima dela em pouco menos de um décimo de segundo.

Capítulo 1 – O Despertar

•08/01/2010 • 4 Comentários

O relógio toca e vibra bruscamente na escrivaninha ao lado, um braço procura alcançá-lo para desligar. Pobre coitado do relógio, que foi derrubado no chão por uma pancada de raiva. Já eram seis e meia da manhã, e o sol começava a brilhar mais forte através da janela, que estava aberta para que a brisa pudesse facilitar o sono. O quarto mais parecia uma grande coleção de pôsteres, colados em todas as paredes e no teto. Era um característico quarto de um pós-adolescente. Havia um computador, uma escrivaninha, um armário bastante bagunçado, uma pilha de livros, roupas em um dos cantos e uma cama que no momento era ocupada pelo dono do quarto. Marcos parecia, para quem o via, um típico jovem de classe média. Desde pequeno sempre fora um aluno regular, e até um pouco quieto demais. Seu pai morreu quando ele tinha apenas seis anos de idade, vivia sozinho com sua mãe desde então. Aprendeu a se virar muito bem por causa disso, apesar de ter preguiça de fazer as tarefas de casa.

Pela segunda vez o relógio tocou, e dessa vez longe de seu alcance, Marcos não pode desligá-lo, teve que acordar. Como em todas as manhãs da vida dele, esfregou os olhos e parou um pouco para refletir, balançando a cabeça negativamente. Retirou as cobertas de cima de si e se colocou de pé, pronto para começar o dia. Andou alguns passos e tropeçou em um dos vários livros espalhados pelo chão.

- Merda, o que infernos isso está fazendo aqui? – disse admirando o livro – Eu podia jurar que tinha guardado.

Na verdade, Marcos havia dormido na noite anterior com o livro no colo, e embora livros não possuam vontade própria, este teria se colocado exatamente no caminho dele se pudesse. Ainda com o dedão latejando, dirigiu-se ao banheiro, reparando curiosamente que não havia ninguém em casa.

- Ué, geralmente minha mãe está em casa a essa hora. – pensa em voz alta – O que será que aconteceu?

Dando de ombros prosseguiu a sua marcha para o banheiro. Tirou a roupa e olhou-se no espelho. Observou um pouco, fez algumas poses e percebeu que sua magreza, que estava com ele desde menino, iria permanecer ainda por muito tempo, embora tivesse feito muito esforço para que isso não ocorresse.

- Acho que não tem jeito, tô com 18 anos e ainda nessa magreza tosca, mas pelo menos sou bonitinho – dizendo isso, continuou a fazer poses no espelho.

Começou a fazer a barba e se cortou. Novamente começou a passar a gilete levemente. Após alguns minutos estava terminado, apesar de ter um corte razoavelmente visível em seu rosto. Pegou o sabonete e entrou no chuveiro, rapidamente se esfregando e passando o shampoo. Não deu dois minutos e estava novamente fora do chuveiro, enrolado na toalha.

Voltou ao quarto e novamente tropeçou no mesmo livro. Resolveu simplesmente atirá-lo contra a parede para tirá-lo do caminho. Se pudesse, o livro teria se atirado pela janela e acabado com seu sofrimento. Escolheu a primeira roupa que viu: uma camisa listrada e uma calça jeans. Saiu para a cozinha, pegou um pão e passou manteiga. Enquanto mastigava sua comida pensava em como seria seu primeiro dia de faculdade; nas pessoas, nos esquisitos e nerds que estariam ao seu lado pelos quatro anos seguintes. Levantou-se e abriu a porta, deu o primeiro passo para fora, e nesse momento se lembrou que tinha esquecido algo bastante importante, a mochila. Após esse breve retrocesso ele novamente abriu a porta, deu o primeiro passo e saiu rua afora, em direção ao seu destino, ou ao que pelo menos acreditamos como destino, mas que ninguém sabe com certeza o que é.

 
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